OMOLU, OBALUAÊ, SÃO LÁZARO, SÃO ROQUE, A FÉ, A MEDICINA DO POBRE

Resumo: para tratar da fé no orixá Xapanã/Omolu/Obaluaê – patrono das doenças e da cura, respeitosamente chamado “o Velho” –, é necessário conhecer algumas narrativas mitológicas próprias dessa divindade. O conhecimento dessas narrativas é também necessário para entender os recortes de suas características em suas diversidades africanas e afro-brasileiras. Tendo em vista essa dimensão qualitativa de diversidade, procurou-se descrever, comparar e analisar narrativas mitológicas envolvendo essa deidade, oriundas do continente africano ou da cultura afro-brasileira, bem como analisamos depoimentos ambientados na Bahia para mostrar os entrecruzamentos dos caminhos de cura da divindade africana/afro-brasileira com as figuras cristãs de São Lázaro e São Roque. Apesar de algumas diferenças, Omolu/Obaluaê e São Lázaro/São Roque possuem pontos em comum, destacados nas religiões afro-brasileiras, entre os quais o deburù (pipoca), chamado de “a flor do Velho”. Palavras-chave: Xapanã/Omolu/Obaluaê. São Lázaro/São Roque. Deburù/pipoca/a flor do Velho. Fé. Cura. Não se deve pronunciar o nome primordial de Obaluaê/Omolu. Xapanã é um nome perigoso e, portanto, chamá-lo de Obaluaê, Senhor da Terra, ou de Omolu, Filho do Senhor são formas de cumprir alguns de seus tabus. Negar, para Omolu, é também afirmar, visto que com este orixá o entendimento pode ser pelo seu contrário. Médico dos orixás e dos seres humanos é reconhecidamente o guardião da saúde dos pobres e daqueles que nele possuem fé. Velho e novo, médico e guerreiro, por vezes Omolu/Obaluaê é confundido e/ou somado a São Lázaro e a São Roque, respectivamente. Os dois orixás são um só e podem ser dois ao mesmo tempo, no imaginário popular baiano; por isso, também se associa Omolu a São Lázaro e Obaluaê a São Roque. Há muitas informações sobre Omolu/Obaluaê oriundas do imaginário popular baiano, brasileiro e de pesquisas mais aprofundadas sobre seus arquétipos no continente africano. As narrativas mitológicas dão as notícias necessárias para as interpretações e conhecimento do mito. Ressalte-se que o sentido de mito, aqui utilizado, é o de narrativa primordial (LEITE, 2007), desprezando-se as interpretações da mencionada palavra que remetem a cargas semânticas de mentira. Outrossim, através do estudo comparativo entre narrativas afro-brasileiras e africanas de e sobre Omolu/Obaluaê evidenciaram-se características importantes do (s) citado (s) orixá (s) para entendê-lo (s) em seu (s) potencial (is) de cura e de encantamentos. Colocam-se as possibilidades de singular e plural, pois apesar de serem títulos do mesmo orixá Xapanã, narrativas do imaginário popular nem sempre dão conta de informações mais específicas e detalhadas da tríade Xapanã/Obaluaê/Omolu e suas múltiplas qualidades, transmutando-se em outros do mesmo grupo. Não houve a preocupação de estabelecer prioridades ordinais para colocar Omolu ou Obaluaê no texto; ora escreve-se primeiro Omolu, ora primeiro Obaluaê. Deve-se admitir que a palavra Omolu aparece em maior quantidade, talvez por experiências nos candomblés da tradição nagô-ketu do autor deste texto. Explica-se quem é Omolu/Obaluaê velho e novo, pobre e rico, senhor cheio de ricos colares de pérolas, pobre velho, pais de filhos que pedem esmolas para realizar suas festividades, suas obrigações. Omolu/Obaluaê, em suas multiplicidades, mantém-se senhor das doenças e das curas, com suas árvores sagradas em diversos terreiros de candomblé e à frente da igreja de São Lázaro no bairro da Federação na Cidade do Salvador. De lá, da frente da igreja, são anotados milagres em segundas-feiras, seu dia da semana, no 16 de agosto e/ou nos rituais para abertura do ano novo. Sendo assim, além de apresentar, descrever, analisar, discutir os mitos foram utilizadas matérias do soteropolitano jornal A Tarde de diferentes períodos, confirmando a fé em Obaluaê/Omolu/São Roque/São Lázaro. Os depoimentos de fiéis atestam os poderes curativos de Obaluaê/Omolu/São Roque/São Lázaro. Apesar de concordâncias e discordâncias, exemplos de alteridade positiva e negativa, afirmando entendimentos controversos do mito, há, ao menos, um elemento unificador: a pipoca. O deburù, flor do velho ou a pipoca do velho compõe-se como elemento unificador da existência da energia sagrada e curativa de Obaluaê/Omolu/São Roque/São Lázaro. Para diversos fiéis, alguns deles entrevistados por A Tarde, a flor do velho cura. Vários rituais do candomblé e de outras religiões afro-brasileiras utilizam-se do deburù, simbolizando a presença de Obaluaê/Omolu. As pipocas são elementos indispensáveis para limpezas feitas em terreiros de candomblé e na porta da igreja de São Lázaro, além de serem utilizadas para caracterizações de performances artísticas afro-brasileiras. Apesar de citado em menor quantidade por depoentes de A Tarde, comentaram-se aspectos das “convulsões” típicas de Omolu, por vezes confundidas com doenças. Tudo aqui foi escrito em uma linguagem acessível, pensando o mundo de forma qualitativa, na descrição, análise e comparação próprias da crítica da cultura. ATOTÔJEHOLÚ AINON: RESPEITO E SUBMISSÃO AO SENHOR DAS PÉROLAS, SENHOR DA TERRA Em narrativa africana a respeito de Obaluaê ou Omolu afirma-se a existência deste orixá desde tempos anteriores à idade do ferro. Fala-se em Obaluaê ou Omolu, pois genericamente na Bahia e no Brasil pode-se chamar a mesma entidade com os dois nomes. Conforme epígrafe retirada de Pierre Verger (1985, p. 61) as duas designações são títulos de Xapanã. Obaluaê, o “Rei, Senhor da Terra” ou, ainda, Omolu, o “Filho do Senhor” rejeita a utilização de utensílios de metal em alguns de seus rituais no continente mãe, pois admitir a utilização do metal seria submeter-se ao território de poder do orixá Ogum que, entre outros domínios, é o Senhor do ferro, patrono da tecnologia. A antiguidade dos cultos de Obaluaê e Nanã Buruku, frequentemente confundidos em certas partes da África, é indicada por um detalhe do ritual dos sacrifícios de animais que lhes são feitos. Esse ritual é realizado sem o emprego de instrumentos de ferro, indicando que essas duas divindades faziam parte de uma civilização anterior à Idade do Ferro e à chegada de Ogum (que veio com Odùdùa) (VERGER, 1997, p. 212). Em candomblés da tradição nagô-ketu da Bahia, o agadá ou faca é o instrumento com o qual Ogum civiliza o universo (LUZ, 2000). Como dono do agadá, a Ogum deve-se fazer reverências em todos os rituais de sacrifício de animais. Não se verificou de forma aprofundada se na Bahia há o sacrifício de animais a Omolu/Obaluaê